LenineCunhaHomeslidePT

Lenine Cunha

 

Sou o Lenine Cunha, tenho 34 anos, sou natural de Vila Nova de Gaia, sou Atleta de Alta Competição, sendo conhecido como o atleta mais medalhado a nível Mundial.

 

Como relembra a sua infância?

A minha Infância foi complicada, derivado ao problema de saúde que tive em criança. Como é do vosso conhecimento, aos 4 anos de idade tive um ataque de Meningite.

Derivado a este problema de saúde perdi algumas coisas da minha infância, o que tornou-a muito complicada para mim. Perdi algumas recordações, a fase escolar não foi fácil… Foi me difícil lidar com algumas sequelas do ataque de Meningite.

Mas para compensar o lado menos bom, surgiu o Desporto.

 

Ao falar da sua infância, refere o episódio da Meningite, consegue falar um pouco sobre isso?

A Meningite, sem dúvida que marca a minha história de vida. Quando tinha 4 anos de idade, como normal em qualquer criança, a minha Mãe colocou-me a fazer a sesta. Com o passar dos minutos, a minha mãe foi ver como estava e quando chegou ao meu quarto para ver se estava tudo bem encontrou-me já num estado bastante crítico, levando-me assim de forma imediata para o Hospital.

Na altura perdi a fala, o andar, perdi a memória, afetou-me o lado esquerdo da face, visão e audição. Mas a sequela mais profunda foi a nível intelectual.

Quando fui para a escola não me lembrava de nada da minha infância até aos quatro anos de idade.

Mas reconheço que se não fosse este episódio, provavelmente não estaria no mundo do desporto. Visto que foi por causa deste problema de saúde que a minha Mãe incentivou-me a prática Desportiva.

 

Como classifica o papel da sua família na sua vida? Desde a infância, a doença e nos primeiros passos no desporto.

O papel da minha família, sem dúvida que foi crucial para todo o meu desenvolvimento, quer pessoal, quer profissional. Com eles não seria possível ser o que sou hoje, ensinaram-me a viver com as minhas limitações no dia-a-dia. Tornando-me a pessoa autónoma que sou hoje.

No Desporto posso afirmar novamente que sem a minha família não conseguia o que consegui até hoje. Gosto de referir que toda esta aventura no Mundo do Desporto acontece graças a minha Mãe que sempre incentivou a prática desportiva. Acreditava que com o meu problema o desporto iria ajudar-me a desenvolver fisicamente e socialmente. Todo este apoio familiar levou a todas as conquistas até hoje, refiro com orgulho as minhas 183 Medalhas Internacionais!

IMG_1664

IMG_1723

IMG_1689

 

Porque a escolha do Atletismo?

A escolha do Atletismo deve-se aos meus familiares, visto que alguns deles praticavam a modalidade. Dou o exemplo do meu Tio que foi Campeão Nacional em 1952 aos 400, 800 e 1500 metros. Ele foi sem dúvida mais uma inspiração para mim.

Na década de 80/90, tive duas primas que chegaram a correr com a Atleta Rosa Mota e com a Aurora Cunha, todas estas histórias familiares incentivaram-me a escolha do Atletismo.

Além disto, o meu Pai tinha um amigo que também foi um dos impulsionadores da minha escolha desportiva, na altura era Treinador no Candal.

 

O que o motiva?

Houve uma altura que praticava a modalidade por questão de saúde. Mas quando entrei para a Alta etição em 1999,a minha paixão pela modalidade aumenta.

Posso dizer que é essa paixão que me motiva diariamente desde 1999. Além deste sentimento, a minha família sem dúvida que é um dos meus motores, destacando a minha Mãe.

O ano de 2016 foi um ano particularmente difícil para mim, visto que a perdi, vítima de doença prolongada.

Tudo o que faço hoje em dia, já mesmo com 27 anos de carreira, é por ela… Ela é a minha principal motivação…

 

Fale-me um pouco das primeiras competições a qual participou.

Uma das primeiras competições a qual participei foi em 2000 na Suécia, onde ganhei três medalhas, sendo considerado Campeão do Mundo na vertente do Triplo Salto.

Nesse mesmo ano, apenas com 16 anos de idade fui aos meus Primeiros Jogos Paralímpicos em Sidney na Austrália, onde era o elemento mais jovem da Seleção Portuguesa. Aqui conquistei o 5 lugar no Salto em Comprimento. Foi nesta competição que percebi que queria fazer do Desporto a minha vida independentemente das dificuldades que iria enfrentar.

IMG_1682

IMG_1721

IMG_1669

 

Quais foram as principais dificuldades perante o seu percurso?

As minhas dificuldades foram bastantes até agora. Posso dizer que uma delas era a falta de apoio monetário, o que me iria impossibilitando de me dedicar a modalidade desportiva.

Em 2007, lembro-me que quis desistir derivado a falta de apoios, não conseguia arranjar emprego o que impossibilitava ainda mais de seguir com o meu sonho. Foi um ano bastante complicado. Felizmente quando menos esperei apareceu um Patrocinador com vontade de apostar em mim. O que se tornou uma motivação extra.

Graças a este Patrocinador, nos Jogos Paralímpicos De Londres em 2012, consegui conquistar a Medalha de Bronze. Tenho plena consciência que se não fosse esta ajuda teria desistido da modalidade e acima de tudo do meu sonho.

 

Como é de conhecimento público, fale-me um pouco dos primeiros prémios que conquistou. O que sentiu?

A minha Primeira Medalha conquistada, como referi anteriormente foi no Campeonato Internacional em Sidney na Austrália, onde fui representar Portugal, conseguindo assim o título de Campeão Do Mundo de Triplo Salto. Foi a minha primeira medalha de ouro! Tinha apenas 16 anos, foi uma sensação inexplicável ouvir o nosso Hino e a elevar o nome de Portugal.

Em 2015, fui considerado mais uma vez Campeão do Mundo no Triplo Salto no Qatar.

Ambas as vitórias conseguidas tiverem significados diferentes, a primeira porque eram os meus primeiros passos na Alta Competição, a segunda o significado foi muito mais forte pelo fato de ter perdido a minha maior referência – a minha Mãe.

 

Relativamente as Competições Internacionais a representar Portugal, quantas medalhas conseguiu até agora?

Até hoje conquistei 183 Medalhas Internacionais, isto em Campeonatos do Mundo, Europa e Jogos Paralímpicos.

Há duas que são as mais importantes para mim, nomeadamente a Medalha de Bronze dos Jogos Paralímpicos Londres 2012 e a do Mundial Qatar em 2015.

 

O que sente com o Título de Atleta mais Medalhado do Mundo?

O que posso dizer… Eu dedico-me a cem por cento a modalidade. Para mim é um elogio enorme ter este título, tendo um peso importante no meu marco dentro da modalidade de Triplo Salto.

Acredito que o mesmo ajuda a perceber a minha determinação em querer alcançar os meus objetivos pessoais e profissionais. Vou partilhar com vocês que o meu próximo objetivo que quero alcançar são as 200 medalhas!

 

A participação nos Jogos Paralímpicos Rio 2016, como correu?

Os jogos do Rio… Não correram muito bem. Fui consciente das minhas limitações. Visto que dias antes do Campeonato Europeu em Junho, sofri uma rutura no joelho enquanto estava a treinar. Mesmo assim participei no Campeonato e consegui conquistei a Medalha de Bronze.

Quando cheguei a Portugal, fiz alguns exames que efetivamente comprovaram a minha rutura. Com a confirmação da lesão estive sem treinar um mês e meio o que dificultou a minha forma física para os Jogos Paralímpicos Rio 2016.

Apesar de não ter conseguido alcançar a Medalha de Bronze no Rio, acredito que se não tivesse sofrido a lesão em Junho, teria conseguido melhores resultados nos Jogos Paralímpicos de 2016.

Acredito que as coisas não acontecem por acaso, acontecem por uma razão, pode ser que venham acontecimentos mais positivos, o que me dá mais força para continuar e chegar ao meu objetivo de conquistar as 200 Medalhas.

IMG_1636

20160904_121645_003_01

IMG_1642

 

Futuro? Quais são os próximos projetos, passos?

Futuro? Como já referi o principal objetivo, atingir as 200 Medalhas Internacionais depois focar-me no Clube que criei a uns anos atrás – Sport Clube Lenine.

Neste momento o meu clube está um pouco estagnado derivado a falta de Atletas que queiram abraçar esta modalidade. Mas acredito que o meu Clube está bem encaminhado derivado ao seu percurso sustentável. Neste momento Clube tem dois Atletas, mas em 2017 iremos ter um novo Atleta.

Acredito que as coisas vão encaminhando-se e isto será o meu futuro.

Além do meu Clube, o ano de 2017 irá ser recheado de Campeonatos, nomeadamente: Campeonato Europa de Pista Coberta em Março, em Praga; o Campeonato do Mundo em Maio, na Tailândia e por fim o Campeonato do Mundo em Julho, em Londres. Acreditem que eu estou com força depois da desilusão do Rio de Janeiro de 2016. Quero voltar em grande e confesso-vos que estou bastante motivado!